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Este ensaio pretende pôr em diálogo duas perspectivas teóricas distintas – a corpografia e etnografia – e refletir sobre as possibilidades de articulação entre corpo e cidade nas paisagens urbanas contemporâneas. Para isso, o texto apresenta alguns exemplos etnográficos em cidades brasileiras e traz para a reflexão antropológica enfoques teóricos e experimentais que procurem pensar o corpo no espaço urbano de forma criativa.
Este artigo propõe-se apresentar, analisar e comparar duas experiências, uma na cidade de São Paulo, a Ocupação Copa do Povo e outra no interior do Rio Grande do Norte, o Assentamento Vale do Lírio, no município de São José do Mipibu, ambas protagonizadas por movimentos sociais, a partir de relatos de campo realizados em diferentes contextos de experimentação etnográfica. Trata-se de uma perspectiva de análise no campo da Antropologia Urbana com base em categorias – pedaço, mancha, trajeto, circuito e pórtico – desenvolvidas ao longo de pesquisas realizadas no Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana da USP. No caso deste artigo, o marco conceitual de referência é dado pela distinção estrutural entre os termos “acampamento” e “assentamento”, aplicados respectivamente aos dois casos analisados.
O artigo estabelece uma analogia entre a observação de baleias-franca em pesquisas de campo e o processo de leitura e escrita na Antropologia. Partindo do relato de seu sobrinho, o pesquisador Mauricio Cantor, sobre a imprevisibilidade do aparecimento das baleias — que emergem quando e onde querem, e não conforme o observador espera —, o autor traça um paralelo com a leitura de textos clássicos e contemporâneos da Antropologia (Frazer, Malinowski, Lévi-Strauss, Ingold, Strathern, entre outros): trechos obscuros e ininteligíveis surgem inesperadamente, exigindo perseverança até que, numa releitura, façam sentido — como o "borrifo da baleia". A metáfora se estende também ao trabalho de campo etnográfico, que exige idas repetidas e paciência até que o insight apareça, e ao próprio ato de escrever, evocando a "maldição da página em branco". O autor sugere que a solução, tanto na leitura quanto na escrita, é seguir em frente e registrar as ideias assim que surgem, mesmo fora de ordem, confiando que encontrarão seu lugar no texto final.
This paper discusses the concepts of borders and urbanities based on individuals and collectivities that circulate in the margins of cities and form the fabric of the so-called sex market; they may identify themselves (but not necessarily) as travestis and transsexual women. This reflection is part of an ongoing survey linked to the Urban Anthropology Center of the University of São Paulo, whose purpose is to establish a multi-sited ethnography in two regions of Brazil: the metropolitan area of João Pessoa, in the state of Paraíba, and the triple frontier in the Amazon region between Brazil, Peru and Colombia. Based on the circulation of transgender people in the margins of cities, this study is an attempt to understand the kind of urban models that emerge from these liminal experiences, which shift between spatial, physical and symbolic boundaries. This investigation suggests the need to rethink the field of city anthropology in Brazil by taking as its basis the models of urban forms that allow for intersections between countryside and city, forest and metropolis, outskirts and downtown.
Este artigo, a partir de alguns usos pouco ortodoxos da etnografia, fora do campo da antropologia, propõe uma discussão sobre a especificidade desse método de pesquisa, com base em pesquisas e reflexões realizadas sobre o tema no Núcleo de Antropologia Urbana da USP (NAU). Tomando como ponto de partida uma citação de Lévi-Strauss, repassa alguns autores - Goldman, Peirano, DaMatta, Favret-Saada, entre outros - para estabelecer parâmetros na busca de traços que considera específicos do fazer etnográfico e assim chega a três considerações principais: etnografia como experiência, como prática e com base numa certa noção de totalidade. O relato de uma etnografia sobre jovens surdos é apresentado para oferecer um suporte empírico àquelas conclusões.
Este artigo busca problematizar os sentidos ambivalentes do lugar da prostituição feminina a partir de pesquisas realizadas com jovens mulheres no interior da Paraíba (região do Litoral Norte e Brejo Paraibano), provenientes de famílias rurais. As trajetórias de vida dessas mulheres revelam um histórico familiar marcado por vários tipos de violência e diferentes estratégias de autonomia para superar essas experiências de privação, embora, muitas vezes, elas se repitam na relação com os cafetões e com os clientes. A prostituição é vista como uma estratégia de empoderamento em relação ao próprio corpo, ao domínio de práticas sexuais pouco convencionais e, ao mesmo tempo, como uma situação de passagem, encarada como um meio para construir projetos futuros, ao menos idealmente, fora da prostituição. Nossa pesquisa, de caráter socioantropológico, revela que os mecanismos para a aquisição de autonomia reproduzem um modelo de dominação e oferecem poucas possibilidades para que essas jovens resistam às normatividades e moralidades vigentes.
Magnani define o neoesoterismo como um amplo campo de espiritualidades contemporâneas que combina influências de tradições orientais, cosmologias indígenas e correntes esotéricas ocidentais, rompendo com as hierarquias das religiões institucionalizadas. O autor mostra que esse fenômeno ganhou força a partir da contracultura dos anos 1960 e se consolidou por meio de redes urbanas, terapias alternativas, comunidades e novos estilos de vida. No Brasil, sua expansão foi favorecida pelo contexto político da ditadura militar e pela circulação de práticas como yoga, budismo, terapias holísticas e movimentos espiritualistas, formando um circuito urbano caracterizado pela diversidade de práticas, mas também por padrões relativamente estáveis de organização e sociabilidade.
Este artigo apresenta os resultados de um trabalho sobre o tema dos jovens e suas práticas culturais e de lazer, redes de sociabilidade e relações de troca (e também de conflito) no contexto urbano da cidade de São Paulo. Após a apresentação e a discussão dos termos "tribos urbanas" e "cultura juvenil", proponho outra denominação, "circuitos de jovens", para a abordagem do tema. Em vez da ênfase na condição de "jovens", que supostamente remete a diversidade de manifestações a um denominador comum, a idéia é privilegiar sua inserção na paisagem urbana por meio da etnografia dos espaços por onde eles circulam e onde se encontram, e das ocasiões de conflito e dos parceiros com quem estabelecem relações de troca. Com isso, busca-se articular dois elementos presentes nessa dinâmica: os comportamentos e os espaços, instituições e equipamentos urbanos. O que se pretende é chamar a atenção (1) para a sociabilidade, e não tanto para pautas de consumo e estilos de expressão ligados à questão geracional, e (2) para as permanências e as regularidades, em vez da fragmentação e do nomadismo.
O artigo discute o modo como a pixação na cidade São Paulo, protagonizada por jovens dos bairros da periferia, configura um dispositivo de sociabilidade, reconhecimento e memória. Nesse dispositivo, aquele que consegue gravar seu nome no maior número de lugares e de maior destaque alcança maior notoriedade. A pixação configura, assim, uma escrita peculiar que esses jovens gravam na paisagem urbana e que faz sentido principalmente para eles, que sabem ler os muros. Por meio dessa escrita, eles criam referências próprias no espaço urbano e recriam a cidade, mesmo que em contraposição à maioria da população, que não vê com bons olhos sua atividade.
Birman e Lehmann analisam o crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus como um fenômeno que transformou o campo religioso brasileiro em um espaço de disputa política, cultural e midiática. Os autores argumentam que a igreja rompeu com o perfil tradicional do pentecostalismo ao investir fortemente na mídia, na política e em estratégias empresariais, confrontando tanto a hegemonia da Igreja Católica quanto instituições como a TV Globo. Essa atuação desencadeou conflitos públicos e revelou disputas em torno da legitimidade religiosa, da cultura popular e do controle dos meios de comunicação, evidenciando que a expansão neopentecostal redefiniu as relações de poder e a produção de hegemonia simbólica no Brasil.

